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Dr. André Andraz Cruz

Oncologista

 

Ensaios clínicos em Oncologia
Qual a sua importância para a população?

HPA Magazine 13

 


Perante o crescimento exponencial do Hospital de Dia de Oncologia na sua capacidade assistencial, torna-se imprescindível complementar o tratamento e cuidado prestado aos utentes, com a atividade científica. Sendo uma especialidade médica em rápida e constante evolução, a partilha de conhecimentos e experiência entrepares é essencial, para se poder na prática clínica, atestar o real valor dos tratamentos oncológicos. A Unidade de Oncologia está empenhada em manter a atividade científica como uma das suas prioridades, assim como a disponibilização de ensaios clínicos pioneiros a nível regional.

 

 


Um ensaio clínico pressupõe uma colaboração entre médicos, doentes e promotores, com o objetivo de investigar novos procedimentos clínicos ou novos medicamentos destinados a identificar, prevenir ou tratar doenças. Os ensaios clínicos que envolvem medicamentos podem ser realizados em consultórios médicos, clínicas ou centros de estudo. Existem tipos de ensaios clínicos de acordo com a hipótese que se pretende validar e com a metodologia estatística utilizada. Envolvem uma rigorosa e isenta preparação, planeamento e interpretação dos dados obtidos. As informações resultantes são de grande importância para a evolução da prática médica, na medida em que permitem avaliar o valor acrescentado de determinado tratamento experimental, comparativamente ao “standard-of-care” atual, numa determinada população. Para que um ensaio seja estatisticamente significativo, é essencial que envolva um número elevado de doentes, podendo assim o seu resultado ser eventualmente integrado na prática clínica.
Atualmente, na Unidade de Oncologia do HPA encontra-se em fase de recrutamento o ensaio clínico KEYNOTE-630, que pretende avaliar o benefício da imunoterapia adjuvante comparativamente à vigilância, em doentes com carcinoma espino-celular cutâneo de alto risco, submetidos a radioterapia. Encontra-se em perspetiva a curto prazo a inclusão do nosso centro noutros ensaios clínicos, nomeadamente em patologia digestiva. 

As recomendações internacionais preconizam a integração em ensaio clínico como a melhor opção de tratamento para a grande maioria dos doentes oncológicos, que reflete bem a sua importância na prática clínica. A nível internacional há uma natural tendência para a centralização destes ensaios em grandes hospitais e centros oncológicos académicos, contudo, e pela impossibilidade de os mesmos tratarem todos os doentes em tempo útil, há uma imprescindível e crescente interligação com hospitais mais periféricos. Assim, os promotores estendem os ensaios para centros mais periféricos, ao reconhecerem o volume e qualidade do tratamento dos doentes. É este fenómeno, para o qual trabalhamos diariamente, que temos assistido na nossa Unidade.
Julgamos que no contexto demográfico do Algarve, tendo em conta a óbvia distância geográfica à capital, é de extrema importância conseguir disponibilizar-se mais esta opção de tratamento para o doente oncológico. Assim, como também é de extrema importância a promoção da literacia em saúde e a desmitificação do conceito associado ao ensaio clínico; não se trata de uma experiência de laboratório aleatória, mas sim uma garantia de qualidade e rigor do melhor tratamento possível.