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Hospital Particular Gambelas

Superior a 1H30

Atendimento Permanente

Dr. Filipe Fernandes

Psicólogo/Neuropsicólogo

 

 

Dr. Filipe Fernandes

Causas e soluções para a “fadiga do zoom”

HPA Magazine 16


Frequentemente sentimo-nos mais cansados e ansiosos após um dia de videoconferências ou de ensino@distância do que após um dia de trabalho ou de aulas presenciais. Esse fenómeno tem sido descrito com muita frequência após a mudança para o teletrabalho e para o ensino@distância a que a pandemia COVID-19 nos obrigou, tendo captado a atenção de vários investigadores, que designaram o fenómeno por “Fadiga do Zoom”. O termo Zoom aqui engloba os meios tecnológicos de videoconferência que utilizamos atualmente no trabalho ou nas aulas, como por exemplo o Zoom, Skype, Google Meet ou o Microsoft Teams.
Irei apresentar aquelas que foram apresentadas pelos investigadores como as principais causas deste aumento do stress, assim como estratégias para as minimizar.


Causas e soluções para a “fadiga do zoom”


 

CONTACTO OCULAR MUITO INTENSO
No espaço de uma aula ou reunião os olhos dos participantes estão usualmente focados no professor ou no orador. Numa reunião por videoconferência todas as faces estão voltadas para cada um dos participantes. A evolução natural tornou o nosso cérebro muito capaz de percecionar quando somos os alvos da fixação ocular de outra pessoa, pois isso poderá significar uma ameaça à nossa integridade física. Estes olhares todos no ecrã, virados para nós, traduzem-se num aumento de stress e ansiedade. É importante relembrar que a fobia social de falar em público é uma das mais frequentes perturbações de ansiedade na população.
Solução: Tentar realizar também reuniões apenas por áudio, nem todas as reuniões necessitam de áudio e imagem. Se a imagem da reunião ou aula que está a assistir não é importante para o que se está a trabalhar, poderá desligar a sua câmara por alguns instantes e virar-se de costas para o ecrã, ficando apenas com o foco no áudio.

INVASÃO DO ESPAÇO PESSOAL
Num ecrã de um computador a face do orador ficará com maiores dimensões no nosso campo visual do que ficaria numa reunião ou aula presencial. O nosso cérebro interpreta este aumento de tamanho como se o orador estivesse muito mais perto de nós, invadindo o nosso espaço pessoal. O nosso cérebro interpreta essa proximidade como uma situação stressante, em que uma proximidade física tão reduzida durante muito tempo indicaria um conflito físico ou um encontro sexual.
Solução: Minimizar e diminuir o tamanho da janela do aplicativo de videoconferência de modo a diminuir o tamanho da face do orador e diminuir a perceção de proximidade.

OLHAR PARA NÓS PRÓPRIOS
No quotidiano é muito pouco natural estarmos a vermo-nos a nós próprios enquanto participamos numa aula ou reunião. Já numa videoconferência é usual termos presente no ecrã uma janela com a visualização da nossa câmara, sendo que nos estamos a ver permanentemente. A investigação tem demonstrado que quando nos vemos num espelho ou imagem é frequente aumentar o nosso sentido de autocrítica, ativando constantemente emoções negativas e aumentando o nível de ansiedade.
Solução: Desligar visualização da nossa câmara.

SEDENTARISMO
Para frequentarmos a escola ou deslocarmo-nos ao emprego há um esforço físico que é usualmente protetor do stress. No teletrabalho ou ensino à distância há uma redução muito significativa do exercício físico que usualmente faríamos, aumentando os níveis de stress. As reuniões ou aulas também têm a tendência a ser consecutivas, com pausas intercalares menores, aumentando igualmente esses os níveis.
Solução: Realizar pausas entre reuniões ou aulas e aproveitar para realizar alongamentos, fazer uma pequena caminhada pela casa, ir até uma janela e focar um ponto no horizonte distante (ajuda também a relaxar a musculatura ocular). Programar exercício físico no quotidiano.

CARGA COGNITIVA MAIS ELEVADA
Numa videoconferência a carga cognitiva, ou seja, a quantidade de informação que é requerida ser processada pelo nosso cérebro é maior. Num encontro presencial a comunicação não-verbal é algo mais natural e que não necessita de tanto processamento. Numa videoconferência tenho que estar atento se estou bem enquadrado na câmara, tendo que me certificar se um gesto que faço com os braços está no enquadramento.
Qualquer gesto que faça tem que ser mais evidente e óbvio. No lado do recetor também há um aumento da carga cognitiva, sendo que na ausência de informação, como a postura corporal, temos de dar mais atenção à entoação da voz e a outros índices da expressão facial mais discretos.
Os gestos dos outros também são mais difíceis de interpretar, sendo que num encontro presencial é fácil percebermos o significado de alguém olhar para o lado, fazendo o mesmo sabemos para onde a pessoa está a olhar. Já numa videochamada ficamos sem saber para onde ou para quem uma pessoa está a olhar, se desviar o seu olhar do ecrã, causando uma maior sobrecarga no nosso processamento cognitivo.
Também as limitações da tecnologia, como falhas de vídeo ou áudio ou dificuldades com a câmara, desfasamento entre o som e a imagem, aumento da latência de resposta do outro (que usualmente é percecionado negativamente) aumenta muito a nossa carga cognitiva e níveis de stress.
Solução: A solução para este problema é mais complicada. O conselho passa por tentar criar espaços e contextos em casa com menos presença da tecnologia e com convivência mais natural. Por exemplo, tornar o espaço das refeições livre de tecnologias, em que se desliga a TV e as notificações de mensagens ou e-mails no telemóvel.

DIFICULDADE NA SEPARAÇÃO DE PAPEIS SOCIAIS
O teletrabalho e ensino à distância dificultam a separação entre a nossa vida profissional e a nossa vida pessoal, sendo que o nosso espaço pessoal se mistura com o nosso espaço profissional. Esta fusão também de papeis sociais torna-nos mais vulneráveis emocionalmente, sendo que poderemos perder o efeito protetor do nosso lar, que antes nos distanciava dos problemas do trabalho ou escolaresares. 
Solução: Tentar criar um espaço específico para trabalhar em casa, evitando o quarto. Nos alunos mais velhos é frequente o computador que utilizam para as aulas síncronas estar presente no quarto, o que poderá vir mesmo a prejudicar o seu descanso noturno, sendo que o cérebro começará a associar o que deveria ser um espaço de descanso e lazer, com o trabalho escolar e o stress inerente.