Na Gastrenterologia, os avanços tecnológicos e a evolução das técnicas permitem atualmente tratar diversas patologias do sistema gastrointestinal de forma minimamente invasiva, segura e eficaz, evitando em muitos casos cirurgias mais complexas e internamentos prolongados.
Desde o tratamento da obesidade e das doenças da motilidade do esófago, até à remoção de lesões pré-malignas e ao controlo urgente de hemorragias digestivas, os procedimentos endoscópicos afirmam-se como uma solução moderna, precisa e com recuperação rápida.
Através de técnicas especializadas realizadas por endoscopia digestiva alta ou colonoscopia, é possível intervir diretamente no esófago, estômago, intestino delgado e cólon, proporcionando melhores resultados clínicos, menor desconforto pós-procedimento e redução do risco de complicações.
Apresentamos de seguida os principais procedimentos terapêuticos realizados, bem como as suas indicações e benefícios para o doente.
A colocação de balão intragástrico é um procedimento endoscópico terapêutico destinado ao tratamento da obesidade. Consiste na introdução de um balão de silicone no estômago através de endoscopia digestiva alta, preenchido posteriormente com líquido ou ar. O balão ocupa espaço no estômago, promovendo saciedade precoce e ajudando a reduzir a ingestão alimentar, sendo sempre acompanhado por orientação nutricional e médica.
O procedimento é realizado sob sedação, de forma segura e temporária, geralmente permanecendo no estômago entre 6 a 12 meses, após os quais é removido por endoscopia. O objetivo é auxiliar na perda de peso e na redução de riscos associados à obesidade, como diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares, funcionando como uma ferramenta complementar a mudanças no estilo de vida.
A Dilatação de Estenoses Gastrointestinais com colocação de próteses endoscópicas é um procedimento terapêutico que consiste em alargar áreas estreitadas do tubo digestivo (como esófago, estômago ou intestino) usando balões ou outros dispositivos introduzidos por endoscopia.
Quando necessário, coloca-se uma prótese (stent) para manter a passagem aberta, permitindo a ingestão de alimentos e líquidos, ou drenagem adequada, em casos de obstruções por tumores, inflamação ou cicatrizes. Este procedimento é geralmente realizado sob sedação e pode ser usado tanto para aliviar sintomas imediatos quanto como tratamento temporário ou preparatório para outras intervenções.
A disseção endoscópica da submucosa é uma técnica avançada de endoscopia terapêutica que permite a remoção de pólipos ou lesões tumorais do tubo digestivo de grandes dimensões, com morfologia complexa ou com sinais de crescimento tumoral inicial, sem necessidade de cirurgia.
O procedimento é realizado com endoscopia de alta resolução e instrumentos de precisão, como facas endoscópicas de pequena dimensão, que permitem a separação cuidadosa da lesão da parede intestinal e a sua remoção em peça única. Esta abordagem assegura margens livres de doença, fundamentais para o sucesso terapêutico e para a possibilidade de cura definitiva.
Trata-se, na essência, de uma forma de microcirurgia endoscópica, minimamente invasiva, segura e eficaz. O internamento é habitualmente inferior a 24 horas, com recuperação rápida e menor impacto para o doente, evitando cirurgias mais invasivas.
A PEG é um procedimento que permite alimentar diretamente o estômago quando a alimentação pela boca é difícil, impossível ou arriscada, como em casos de dificuldade de deglutição, doenças neurológicas, cirurgias na boca ou esófago, ou em pacientes em coma prolongado.
O exame é feito com endoscopia digestiva alta, guiando a inserção de um tubo através da pele até ao estômago. O tubo permite administrar alimentos e líquidos de forma segura, podendo ser temporário ou definitivo, conforme a situação clínica do paciente.
A PEG requer cuidados contínuos: é necessário manter a higiene da pele em torno do tubo, verificar o estado do dispositivo e prevenir complicações como deslocação do tubo, infeções, obstruções ou aspiração do conteúdo gástrico. Com a monitorização adequada, o procedimento é seguro e garante nutrição adequada quando a alimentação oral não é possível.
Em situações de urgência, como a hemorragia digestiva com origem no estômago, duodeno, intestino delgado ou cólon, o tratamento endoscópico constitui a primeira linha de abordagem.
Atualmente, dispomos de várias técnicas eficazes para o controlo do sangramento, incluindo a injeção de agentes esclerosantes, a aplicação de clips endoscópicos e métodos de fulguração, permitindo uma intervenção rápida, segura e minimamente invasiva.
A Laqueação Elástica de Varizes Esofágicas é um procedimento terapêutico endoscópico utilizado para tratar ou prevenir complicações associadas às varizes do esófago. As varizes esofágicas são veias dilatadas e anómalas, geralmente na metade inferior do esófago, que surgem como consequência de doenças crónicas do fígado e apresentam um risco elevado de hemorragia.
O procedimento consiste na colocação de pequenos elásticos ao redor das varizes através de um endoscópio, causando a sua oclusão e promovendo a cicatrização. A laqueação pode ser realizada de forma preventiva, em doentes com risco elevado de hemorragia, ou em situação de urgência, quando já existe hemorragia digestiva alta ativa proveniente de uma variz esofágica, funcionando como tratamento eficaz para controlar o sangramento.
A miotomia endoscópica peroral (POEM) é uma adaptação da técnica de disseção endoscópica, desenvolvida para o tratamento de doenças motoras do esófago, como a acalásia, bem como de algumas patologias congénitas, como o divertículo de Zenker.
Aplicando os princípios da disseção endoscópica, esta técnica permite a realização de uma miotomia (secção controlada das fibras musculares) de forma segura e minimamente invasiva, reduzindo significativamente o risco de perfuração do órgão.
No passado, estes doentes eram frequentemente submetidos a cirurgias complexas e de maior risco. Com o advento desta técnica inovadora, é possível um tratamento exclusivamente endoscópico, sem cicatrizes externas, com internamento curto e recuperação rápida.
A Mucosectomia é um procedimento endoscópico minimamente invasivo utilizado para remover lesões tumorais nas camadas mais superficiais do intestino, nomeadamente a mucosa e a submucosa. É realizada durante uma colonoscopia ou endoscopia digestiva, com um tubo fino e flexível equipado com câmara, pinça e bisturi elétrico, que permite a visualização e remoção precisa da lesão.
Este procedimento é seguro, praticamente indolor e permite uma recuperação rápida, evitando cirurgias mais invasivas. A Mucosectomia é indicada para tratar lesões que ainda não penetraram nas camadas mais profundas do tubo digestivo, ajudando a prevenir a evolução para condições graves, como o cancro colorretal.