O desenvolvimento dentário é um processo biológico complexo, cuidadosamente regulado e influenciado por fatores genéticos e ambientais. Em condições normais, é esperado que a criança tenha 20 dentes decíduos (de leite) e posteriormente 32 dentes permanentes (definitivos). No entanto, alterações durante o desenvolvimento podem resultar em anomalias dentárias, entre as quais se destacam as relacionadas com o número de dentes, que podem afetar tanto a dentição decídua quanto a permanente.
Alterações relacionadas com a ausência de dentes:
Agenesias Dentárias
As agenesias dentárias constituem um espectro de alterações caracterizadas pela ausência congénita de dentes, variando desde quadros leves até quadros extensos e sindrómicos, podendo afetar ambas as dentições.
Estas alterações podem ser classificadas como:
- Hipodontia: ausência congénita de até cinco dentes;
- Oligodontia: ausência congénita de 6 ou mais dentes;
- Anodontia: ausência total de todos os dentes, condição extremamente rara.
Embora os terceiros molares sejam os dentes mais frequentemente ausentes na população, não são considerados na classificação das agenesias dentárias.
Hipodontia
A hipodontia é a forma mais comum da alteração do número de dentes e apresenta comportamento multifatorial, com forte predisposição genética, em que os dentes mais comumente afetados são os segundos pré-molares e os incisivos laterais superiores.
A hipodontia pode ter diferentes origens:
- Genética (a causa mais comum): podendo ter carácter hereditário;
- Fatores ambientais: como alterações no desenvolvimento embrionário, traumatismos na região alveolar, uso de determinados medicamentos, infeções severas durante a gravidez;
- Pode ocorrer isoladamente ou associada a síndromes genéticas.
Clinicamente, a hipodontia não se limita à ausência dentária isolada, podendo provocar espaçamentos, alterações fonéticas, comprometimento estético e desequilíbrio oclusal (mordida). Em crianças, uma anomalia deste tipo tem um impacto relevante na autoestima e no convívio social, sendo necessário reforçar a importância de uma abordagem precoce para planeamento do tratamento adequado, preservação de espaços e orientação do desenvolvimento funcional.
Quando a ausência dentária é mais extensa, caracteriza-se como oligodontia ou anodontia, trazendo repercussões funcionais e estéticas mais complexas.
Oligodontia
A oligodontia caracteriza-se pela ausência congénita de seis ou mais dentes, sendo considerada uma forma severa de agenesia dentária, embora menos extrema que a anodontia. Os dentes mais frequentemente afetados incluem os segundos pré-molares, incisivos laterais superiores, incisivos inferiores e, com menor frequência, caninos e molares.
Anodontia
A anodontia representa a forma mais severa das agenesias e corresponde à ausência total de dentes decíduos e permanentes. Trata-se de uma condição extremamente rara, fortemente associada a síndromes genéticas. Devido ao impacto funcional, estético e psicológico significativo, a intervenção deve ser realizada desde a infância, incluindo reabilitação protética, suporte psicológico e acompanhamento familiar.
Conduta em Odontopediatria
- Diagnóstico precoce e vigilância contínua;
- Reabilitação protética ainda na infância, visando o estímulo funcional, otimização da fonação e mastigação e redução do impacto psicológico negativo;
- Acompanhamento periódico do crescimento ósseo e desenvolvimento facial;
- Abordagem multidisciplinar, envolvendo diferentes especialidades.
Enquanto algumas crianças apresentam ausência de dentes, outras podem desenvolver em excesso, condição conhecida como hiperdontia, que também demanda diagnóstico precoce e intervenção adequada.
Alterações relacionadas com excesso numérico:
Hiperdontia (Dentes Supranumerários)
Fatores genéticos e moleculares também podem estar envolvidos, sendo frequente a sua associação com síndromes como a displasia cleidocraniana. Os dentes supranumerários podem surgir em qualquer zona das arcadas, mas a sua frequência é mais comum na maxila (arcada superior).
Estes podem interferir significativamente com a erupção dentária, provocando:
- Inclusões dentárias (impedir ou atrasar erupção);
- Desvios de erupção, diastemas, alterações oclusais;
- Reabsorções radiculares;
- Pode, em alguns casos, provocar a formação de quistos dentígeros.
Muitos dentes supranumerários permanecem assintomáticos por longos períodos, o que reforça a importância do diagnóstico radiográfico precoce, especialmente durante a fase de dentição decídua/mista.
Consequências das Alterações Numéricas
As discrepâncias no número de dentes, quer excesso ou por ausência, não constituem apenas variações anatómicas. Podem desencadear uma cascata de repercussões que afetam a homeostase do sistema estomatognático, incluindo:
Implicações estéticas: comprometimento da harmonia do sorriso, maior dificuldade de higiene oral e aumento do risco de cárie;
- Comprometimento funcional: os dentes trabalham em equipa e quando existe ausência destes, verifica-se um comprometimento da eficiência mastigatória e fonética;
- Alterações biomecânicas e ortodônticas: a falta ou o excesso de dentes pode resultar em más oclusões complexas que exigem intervenções ortodônticas mais prolongadas;
- Fatores psicossociais: o reflexo na autoestima é significativo, especialmente em pacientes jovens e adolescentes, em que ter um sorriso muito diferente pode causar insegurança, fazendo com que a criança evite sorrir ou socializar;
- Desenvolvimento craniofacial e estímulo ósseo: tanto a ausência quanto o excesso de dentes interferem diretamente no desenvolvimento dos arcos dentários e das bases ósseas, resultando num crescimento desequilibrado dos maxilares.
Diagnóstico
A identificação precoce destas anomalias é fundamental dado que:
- Permite identificar antecipadamente problemas funcionais e estéticos;
- Viabiliza o planeamento multidisciplinar e prevenção de problemas futuros;
- Auxilia pais e crianças no acompanhamento psicológico e educativo;
- Garante que intervenções ortodônticas e protéticas ocorram no momento biológico ideal.
O diagnóstico é baseado na anamnese, no exame clínico e em exames radiográficos. Na Odontopediatria, o acompanhamento do cronograma de erupção dentária é essencial para identificar atrasos ou ausências suspeitas, permitindo intervenções precoces.
Exame clínico: contagem de dentes presentes e avaliação de alinhamento, identificação de dentes retidos ou anormalidades de erupção;
Exames Radiográficos:
- Ortopantomografia (Radiografia Panorâmica): para avaliação global de dentes ausentes ou supranumerários;
- Periapical ou oclusal: útil para análise detalhada da posição e morfologia dentária;
- CBCT (Tomografia Computadorizada de Feixe Cónico): cada vez mais usado em Odontopediatria para localizar exatamente a posição de mesiodens ou dentes inclusos em relação às raízes dos dentes vizinhos.
História Familiar e Avaliação Sistémica: identificação de padrões hereditários e avaliação de síndromes associadas quando houver múltiplas anomalias;
Exames Complementares: testes genéticos em casos severos de oligodontia ou anodontia.
Após se identificar a alteração no número de dentes, o passo seguinte é planear a intervenção de forma individualizada, considerando o crescimento e desenvolvimento da criança.
Abordagem Terapêutica
O tratamento das alterações no número de dentes não deve ser visto como uma intervenção isolada, mas sim um planeamento rigoroso faseado e prospetivo, acompanhando o crescimento da criança. Decisões como exodontia de supranumerários (extrações), manutenção de espaços, fechamento ortodôntico, preservação de dentes decíduos, reabilitação protética ou colocação de implantes dentários (contraindicados na fase de crescimento) devem considerar a idade, o estágio de desenvolvimento dentário e o impacto funcional e psicossocial, sendo o acompanhamento individualizado, especializado e multidisciplinar indispensável.
Em casos de agenesia, o dente decíduo deve ser preservado o máximo de tempo possível. Este serve como um mantenedor de espaço natural e ajuda a preservar o volume de osso alveolar para facilitar soluções definitivas na idade adulta.
O prognóstico é altamente favorável quando a intervenção é precoce, permitindo minimizar os efeitos cumulativos no crescimento craniofacial, garantindo que a criança atinja a idade adulta com uma dentição funcional, saudável e esteticamente harmoniosa.
A Importância da Intervenção Atempada
As alterações no número de dentes, sejam por ausência ou excesso, ultrapassam a esfera da estética dentária, impactando de forma significativa o crescimento integral da criança, tanto na função mastigatória, fonética, estética como no desenvolvimento craniofacial e psicossocial. O diagnóstico e a intervenção precoce visam minimizar efeitos cumulativos, reconstruindo a função e a harmonia facial ao longo do desenvolvimento da criança.
Com acompanhamento especializado e implementação de um plano terapêutico individualizado, crianças com estas alterações podem desenvolver uma saúde oral equilibrada, confiança e qualidade de vida, desde que haja adesão da criança e da família ao tratamento e acompanhamento contínuo.
Neste contexto, a intervenção da Odontopediatria vai muito mais além do que um tratamento dentário. Através de um diagnóstico atempado e de uma abordagem multidisciplinar, que envolve frequentemente a ortodontia, a cirurgia e a psicologia, é possível transformar o que seria uma limitação funcional num percurso de reabilitação bem-sucedido.
Investir na saúde oral infantil é, em última análise, um investimento na qualidade de vida e no bem-estar social futuro, garantindo que cada criança possa sorrir com confiança e funcionalidade plena.
Conteúdo desenvolvido pela Dra. Mariana Costa
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16 de Janeiro de 2026












